sábado, 31 de julho de 2010

O passaro

Por onde foi voar o mais belo dos pássaros, se só há terra árida longe daqui?
Mas será que é de terra fértil que ele precisa pra viver, se a necessidade do pouso é a trágica limitação da sua capacidade genuína de voar?
Uma vergonha pra ele. Um fracasso.
Ela o quer por perto porque é terra.
Ele quer se esquecer que precisa dela.
Com o peito cheio de razão e coragem, ele se vai... voa longe... sozinho e forte. 

Deixando para trás, orgulhosamente, toda abundância que o enfastia e toda segurança que o enclausura.
Vem a chuva, o vento, o frio...
Avista um monte, sente-se tentado em render-se.
Por estar tão longe e solitário, não se sentiria livre mesmo pisando aquele chão tão remoto?
Não. Não poderia, o monte pertence a ela.
Segue voando bravamente. Ainda sozinho, mas já não mais tão forte.
Ela não o agride, não o persegue, não o assedia. Apenas existe, em tudo que existe, e isso o insulta. Como queria não fazer parte, ser aparte, soberano de si
Mas como viver sem ela?
E como suportar à humilhação de sucumbir?
Resolve então seguir.
Até exaurir-se de toda força.
Até embriagar-se de todo orgulho.
Até locupletar-se de toda honra.
Até cair de fome fartamente sobre sua abundância.
Até morrer livremente em sua segurança. 

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